Dentro do balanço de um banco

Lembram-se desta explicação do balanço de um banco? É um pouco mais complicado que isso, e por isso aqui vai uma descrição detalhada de tudo o que podemos encontrar no balanço de uma instituição bancária, neste caso com valores de todo o sistema em 2014. Será útil para perceber o que vem depois.

balanço

Para perceber os rácios de capital

balanco consolidado

A imagem acima resume o balanço dos bancos portugueses em 2014.

Tal como qualquer empresa, o balanço de um banco representa o que este deve (o seu passivo), o que este tem a haver (o ativo). A diferença entre estas duas grandezas representa o que é atribuível aos seus acionistas (o capital).

No ativo registam-se os direitos e os bens do banco. São aqui registados os depósitos que o banco tem noutros bancos, incluindo o BCE, os títulos da sua carteira, como ações e obrigações que comprou e, a grande fatia, os empréstimos que concede aos clientes (crédito à habitação, os saldos dos cartões de crédito ou financiamento de tesouraria a uma empresa). Também estão aqui registados os imóveis que detém, sejam para o seu uso ou para investimento.

No Passivo registam-se os deveres a que o banco está obrigado: os empréstimos que obtém dos outros bancos e do BCE, as obrigações que emite e, a rúbrica mais importante e relevante, os depósitos que lhe são confiados pelos clientes. É no passivo que o banco recolhe a grande parte dos fundos que investe nos ativos que estão do lado esquerdo do balanço.

Mas o banco, fazendo negócio com o dinheiro que lhe é confiado, emprestando-o e investindo-o, tem que ter alguns fundos próprios para financiar a sua atividade, o capital. O capital é, simplificando, o dinheiro investido pelos acionistas ao qual se junta os ganhos que foi acumulando ao longo dos anos.

Uma das principais preocupações do banco central – o Banco de Portugal e o Banco Central Europeu – é assegurar que os bancos mantêm valores de fundos próprios adequados à dimensão do seu ativo. Se pensarmos no ativo como o investimento que o banco faz (concedendo crédito ou investindo em ações, por exemplo), o Banco Central zela por que uma parte desse investimento seja assegurado por verbas provenientes dos acionistas (o capital), limitando a tendência natural dos bancos para utilizar as verbas alheias, sobretudo empréstimos de curto prazo.

Nesta medida da relação entre o capital e o ativo, falta só referir que há riscos diferentes associados a classes de ativos diferentes. Por exemplo, um depósito no Banco Central é incomparavelmente menos arriscado (uma vez que dificilmente o BCE falhará um pagamento) que um empréstimo de longo prazo a uma pequena empresa que pode vir a não ser reembolsado se o negócio não correr como se espera.

Assim, os ativos são medidos de forma ponderada pelo seu risco. Chama-se a este indicador Risk-Weighted Assets (RWA).

O rácio de solvabilidade mede a relação entre o Capital do banco e a os ativos ponderados pelo risco. Há diferentes regras e formas de contabilização do rácio de capital, mas isso fica para outro artigo.

Conta ‘Escrow’

Conta ‘Escrow’ – não há um termo em português para este tipo de conta mas poderá chamar-se uma conta dedicada ou uma conta-garantia

É uma conta dedicada ao cumprimento de determinada obrigação resultante de um acordo entre duas partes. A conta é entregue à guarda de um terceiro, habitualmente um banco, que a mantém assegurando que os valores depositados só serão entregues mediante o cumprimento das condições previamente estabelecidas entre as partes do acordo.

Agora sim, o “esquema” das obrigações

obrigações esquema

Até 22 de janeiro de 2014 as emissões de obrigações do BES eram colocadas no BES Vida, como explicado no post anterior. A partir do dia 29 de Janeiro, por desconforto do BES Vida, as obrigações passam a ser colocadas num fundo, gerido pela ESAF, chamado ES Fixed Income.

O esquema circular era em tudo parecido aquele já explicado. O BES, através das suas sucursais no Luxemburgo, em Londres ou nas ilhas Caimão, emitia obrigações que vendia à ES Fixed Income (muitas vezes acima do valor de mercado). Para facilitar o exemplo, assumimos que essa venda é feita por 100€.

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Por que se fala tanto nas obrigações?

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Foi este o esquema que precipitou a queda do BES ao gerar a necessidade de registar uma provisão de perdas potenciais de 1.250 milhões de Euros, não contemplados na almofada de capital que, um mês antes da intervenção no banco, todos declaravam suficiente.

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Como funciona uma obrigação

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Obrigação do BES Luxemburgo

A imagem acima é parte da ficha técnica de uma emissão obrigacionista feita pelo BES Luxemburgo em 2012. Faz parte do conjunto de obrigações que foram recompradas em julho de 2014 com perdas avultadas para o BES e que precipitaram a queda do banco.

Sem querer entrar em detalhes sobre o esquema das obrigações – lá chegaremos – a ideia é, tão só, usar este exemplo para explicar o funcionamento de uma obrigação. Continuar a ler

Nota sobre biliões, milhões, e milhares de milhão

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Todos estes conceitos querem dizer, na prática, muito dinheiro. Mas há diferenças que vale a pena esclarecer.

Em Portugal um bilião é um milhão de milhão. Nos países Anglo-Saxónicos um bilião significa mil milhões.

Em todos os documentos escritos em inglês aparece a palavra billion, que às vezes é traduzida para bilião. Faz-se normalmente por ser mais fácil, mas o que se quer dizer é mil milhões, e nunca um milhão de milhão.

Oralmente, one billion diz-se one ‘b’. Por isso é que as vezes ouvimos alguém dizer que o Novo Banco custou 4.9 ‘bees’, ou seja, 4.9 billion, ou seja, 4.9 mil milhões.

Anatomia do Grupo Espírito Santo: uma tentativa

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Não será, com toda a certeza, o mais estilizado ou completo retrato da composição do Grupo Espírito Santo, mas serve o propósito. E o propósito é tentar descodificar a complexa estrutura do GES e isolar os ramos financeiro e não financeiro, tantas vezes referidos.

No topo da estrutura estava a Espírito Santo Control (ESC). Esta sociedade era diretamente controlada pelos 5 membros do Conselho Superior e detinha a maioria do capital da Espírito Santo International (ESI), a sociedade que juntava a família aos investidores privados. Continuar a ler

BES: Operações de liquidez, colateral, e haircut

Para quem estiver a assistir à audição de Vitor Bento, pequenas traduções:

Os bancos privados podem recorrer a empréstimos do BCE ou do Banco de Portugal para obter “liquidez”, ou seja, o dinheiro necessário para as responsabilidades que vão vencendo. Para recorrer a estes empréstimos, os bancos devem apresentar ‘colateral‘, ou seja, uma garantia ‘real’, que normalmente constitui a forma de obrigações (direito de crédito sobre outra instituição) de baixo risco, como por exemplo, títulos de dívida soberana. As regras para recorrer às linhas do BCE ou do BdP são diferentes. Nos empréstimos do BCE a qualidade exigida para esse colateral é superior à dos empréstimos concedidos pelo BdP (neste caso é possível dar como colateral, por exemplo, empréstimos à habitação ou a empresas não financeiras que tenham sido concedidos pelo banco – também eles um direito de crédito sobre outro). Continuar a ler