Álvaro Sobrinho: o dinheiro nunca saiu de Portugal?

Álvaro Sobrinho veio à comissão de inquérito dizer que o dinheiro emprestado pelo BES ao BES Angola nunca saiu, afinal, de Portugal.

Fugindo ao detalhe que a questão exigia, Sobrinho explicou que os 3.300 milhões de Euros emprestados ao banco angola que geriu até 2012 estavam em Portugal por duas vias:

  • Porque 1500 milhões foram para o BESA comprar, em 2008, obrigações do tesouro angolano. O Estado angolano depositou o valor da venda numa conta em Portugal;
  • Porque o BESA prestou uma espécie de garantias aos importadores angolanos de produtos exportados a partir de Portugal e que, quando os importadores falharam, o BESA teve de respeitar essas garantias pagando, sem receber, essas verbas ao banco dos exportadores, quase sempre o BES.

Vamos explorar aquilo que Sobrinho não explicou.

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Ricardo Salgado vence prémio BBC para pior CEO 2014

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“The worst CEO of the year goes to the head of the Salgado family of Portugal, the kingpin of an interlocking and complex set of entities that controlled the second-biggest bank in Portugal — and brought it to bankruptcy.

The bank’s first half loss this year was 3.6bn euros ($4.5bn), forcing the Portuguese government to inject 4.9bn euros ($6.1bn) into the bank as part of a restructuring that leaves Salgado, and many investors that went along with him, out in the cold.” Escreve a BBC (ver o resto aqui). 

Salgado torna-se assim o pior banqueiro de 2014, depois de ter sido considerado, anos e anos a fio, o melhor. Para memória, também o BESA ganhou o ‘Best Bank Award’ da Global Finance em 2013, apesar de já ter milhares de milhões de empréstimos fraudulentos no balanço.

Quando pediram a Morais Pires uma autocrítica, o ex administrador financeiro do BES disse qualquer coisa como ‘estávamos numa guerra, e perdemos’. E é assim que tem sido. Avaliam-se os resultados, independentemente das práticas. Um péssimo princípio, como estamos a ver.

Por que é que é importante olhar para a KPMG?

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Excerto do parecer da KPMG às contas de 2012 do BESA

A KPMG era a revisora de contas do BES desde 2002. Cabia-lhe a análise e aprovação, ou não, das contas financeiras do banco. Para além do BES, a consultora/auditora/revisora trabalhava ainda para a grande maioria das empresas financeiras do Grupo Espírito Santo (ver lista aqui). Entre elas, a Espírito Santo Financial Group, a Espírito Santo Irmãos, a Espirito Santo Financial e, claro, o BESAngola (ver estrutura aqui).  A abrangência do conhecimento da KPMG em relação ao Grupo Espírito Santo levanta duas questões, às quais não podemos, não queremos, nem devemos fugir.

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BES Angola: o elefante que ninguém quis ver

Fundado em 2002, o BES Angola rapidamente ascendeu a um lugar cimeiro entre os bancos angolanos, com a sua atividade a registar taxas de crescimento difíceis de conceber, mesmo para uma economia em forte crescimento como a angolana.

Olhando para os relatórios do BESA, verificamos que o balanço do banco cresceu mais de 40 vezes entre 2004 e 2013, de 263.9 para 11.341 milhões de dólares, o que corresponde a um crescimento médio de 52% ao ano. Entre 2007 e 2008, por exemplo, a atividade do banco cresceu 6 vezes.

Este crescimento foi, em larga medida, financiado pelo Banco Espírito Santo, aparentemente sem levantar dúvidas ao supervisor português. Continuar a ler