A resolução do Banif explicada em três passos

O processo de resolução do Banif é complexo, e envolve operações em vários passos. O objetivo é explicá-los, pedindo-vos paciência para ler os desenhos e tolerância para algum lapso ou erro.

Captura de ecrã 2016-04-11, às 21.37.30

O primeiro passo: é criado um veículo chamado Naviget (entretanto mudou o nome para Oitante), com o capital social de 50.000€, que pertence ao Fundo de Resolução. Para esse veículo passam um conjunto de ativos “menos bons” que estão registados no balanço do Banif por 2200 milhões de euros. A Comissão Europeia e o Banco de Portugal acreditam que estes ativos valham muito menos que isso, cerca de 746 milhões de euros. Então, a Oitante paga ao Banif 746 milhões. No banif fica um buraco, já que ativos que estavam registados por 2200M€ mas só receberam 746M€. Última questão: como é que a Oitante consegue ter dinheiro para pagar ao Banif? Não tem, por isso pede emprestado, emitindo obrigações. Estas obrigações são compradas pelo próprio Banif. Isto quer dizer que no futuro a Oitante terá de pagar essas obrigações, à medida que for ganhando dinheiro com a venda dos ativos. Se ganhar mais que os 746 milhões, então o lucro vai para o Estado. Por outro lado, se a Oitante falhar quem pagará é o Fundo de Resolução, e se o Fundo de Resolução falhar quem pagará é o Estado.

Captura de ecrã 2016-04-11, às 21.37.42

Segundo passo: Aqui a coisa complica mais. Do Banif o Santander escolhe leva vários ativos e passivos. Entre eles estão os depósitos do Banif, empréstimos, títulos, agências, e também as obrigações emitidas pela Oitante. Não temos as contas certas, mas podemos presumir que seja um valor equivalente de ativos e passivos. Para além disso, o Santander fica também com 489 milhões entregues pelo Fundo de Resolução, acrescidos de 1766 milhões de euros entregues pelo Estado. Contas feitas, como resultado da intervenção do Estado, o Santander levou mais 801 milhões de euros, para além dos ativos e passivos escolhidos.

Por sua vez, o Santander paga 150 milhões ao Estado.

Falta referir que, nos ativos escolhidos, o Santander também leva 179 milhões em ativos por impostos diferidos. Podem vir a transformar-se em créditos sobre o Estado, o que quer dizer que ainda podem vir a anular os 150 milhões pagos pelo Santander.

No fim sobra o Banif, banco mau, que ficou com ‘os restos’. Os ativos que ninguém quer e que não têm valor, e, o passivo, os acionistas e credores subordinados que dificilmente irão reaver o seu dinheiro.

 

Captura de ecrã 2016-04-07, às 22.48.21

p.s. perdoem o diminuto tamanho das imagens. Terei de aprender a fazer isto melhor…

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8 thoughts on “A resolução do Banif explicada em três passos

  1. OK deixando todos estes caminhos pensados por pessoas que nada fazem na vida do que pensar nestes esquemas!….A pergunta que se coloca é?….. Porque não se prende essa gente ? Ou existem todos esses crimes… E estão todos inocentes? Os únicos culpados somos apenas nos que continuamos a alimentar todos estes esquemas? Que me interessar a mim saber os nomes desses veículos ? Que me interessa a mim o nome de todas essas trafulhices se continuam a roubar-me?

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  2. Mariana
    No esquema os 489 M ( custos de reestruturação) vão do Estado para o FR e deste para o Banif. É mesmo assim? Não entendo. Ou então vão depois do Banif para o Santander?
    E como chegas aos 801 milhões?
    O Santander leva os activos também com provisões, valor mais baixo.
    E julgo que há uma garantia do Estado para cobrir potenciais imparidades nos activos.
    Cronologicamente a operação deve ter começado pelo Santander retirar do Banif o que queria , e o Estado capitalizar a diferença entre activos e passivos . Depois foi criado o FR e o que sobra é o Banif mau, que também deve ter sido capitalizado. Quando saberás as contas certas?
    Abraço

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    • Todas as operações entre Estado e privados têm sempte brutais “derrapagens”, que todos os cidadãos são obrigados a pgar. Onde param os ecomistas e gestores do Estado tão generosamente pagos? E a atribuição de responsabilidades morreu solteira?

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    • Acácio
      É difícil definir uma ordem cronológica já que tudo se passa num mesmo momento. Os passos descritos tentam apenas ajudar a explanar a resolução.
      Se quisermos pensar primeiro na transferência do Banif para o Santander, que excluiu 2.200 milhões de euros de ativos, temos de contar com a sua compensação:
      – 489 milhões por parte do Fundo de Resolução (com dinheiro emprestado pelo Estado)
      – 1766 milhões diretamente pelo Estado.
      Este valor não representa o pagamento destes ativo, mas sim o necessário para que o “Banif transferido” fosse suficientemente capitalizado.
      Os 2.200 milhões de ativos transferidos (valor líquido de provisões) foram desvalorizados no apuramento do valor da transferência para a Oitante (Naviget como se camava em Dezembro), tendo sido comprados por 746 milhões euros. Este valor não foi pago em dinheiro mas em dívida (obrigações). Ou seja, à medida que a Oitante for vendendo estes ativos vai pagando ao Santander o que lhe deve. Se os ativos não renderem este valor, é o Fundo de Resolução que pagará o montante em falta, pois prestou uma garantia sobre essas obrigações. O Estado também intervém nestas obrigações, contragarantindo o Fundo de Resolução. Ou seja, se o Fundo não pagar, será o Estado a avançar essa verba.
      Quanto aos 801 milhões é o aumento do valor do “banif transferido” após estas operações.
      Onde fomos buscar os 756 mio? Era uma gralha, entretanto corrigida.
      Abraço

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  3. Mariana, obrigada e parabéns pelo trabalho. É muito importante o esclarecimento para que todos nós, cidadão comuns e com mais ou menos conhecimentos na área, possamos perceber o que está por trás destes processos. Não sei se esta pergunta faz muito (ou algum) sentido mas, quando olho para os gráficos que disponibilizas, a questão que me surge é qual a necessidade (ou o sentido) de injectar cerca de 3000 milhões de euros num banco que na realidade só “necessitava” de 2200 milhões? Sendo que, do excedente de 800 milhões, só 150 foram pagos pelo Santander?

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  4. Segui comissão do BES e agora esta do Banif nestas ultimas 2 aodiçoes (ex-Ministra e attual Ministro). Fiquei desiludido genericamente com esta comissão porque as perguntas e conjeturas e teses são mal enunciadas, parcas e obviamente as perguntas andam ‘à toa’ apenas procurando ganhos de tempo de antena! Não estão a focar atenção sobre as ilicitudes da gestão, mas os mais ou menos corretos processos ou momentos de solução. E nesses, se bem que encontro ‘maioridade’ nas declarações da ex-Ministra, encontro ligeireza e impreparação no(s) atores deste governo. E penso que existe, isso sim, um grande problema que estamos a tempo de resolver ou pelo menos minorar. Que é a circunstancia de uma mesa de negociações deste calibre (governo, BdP, DGCom, AdmBanif, BCE, ComEu, Santander (ou outro qlq comprador ou processo de compra), ver a parte do governo trocar de pessoas por via de mudança de Governo, e apenas com 2 semanas de existencia ter de fazer um negocio de u, banco em um dia e nestas condições! seja qual for a estratégia anterior, e havendo ou não mudança da mesma, isto obviamente cheira a festim para a parte compradora! e nem sequer é preciso pensar em maus comportamentos … é assim, é um ganho de vantagem enorme, neste caso pelo Santander. Pela simples natureza das coisas! Algo devia ser possivel de ser acautelado. Nenhuma das partes ia emigrar para a Lua. Ou se impede que um governo com esta existencia parca de tempo é proibido de fazer negocios/perdas para o Estado de certa dimensão, ou então se obriga a que se mantém a assessoria no processo (ao Governo) por parte dos ex-titulares. Sendo a estratégia a seguir confessado pelo atual Ministro a mesma, porque não chamou para assessoria a ex-Ministra? foi melhor oferecer um festim?

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  5. Pingback: A resolução do Banif em três passos, segundo Mariana Mortágua « Caso Banco Banif

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