BES: esquemas com offshores e ligações à Eurofin no início da década

Euroifin

Em 2002 a PriceWaterhouseCoopers (PwC), auditora do BES, enviou várias cartas ao banco, no sentido de esclarecer dúvidas levantadas pela análise das contas de 2001*.

A primeira prendia-se, imagine-se, com a exposição do BES ao GES (em particular à ESI) que era, em 2001, de 855 milhões de euros. Em 2000, esta exposição tinha atingido os 1169 milhões de euros) .

A segunda dizia respeito a 673,3 milhões de euros de créditos concedidos pelo BES a empresas offshore. As quatro mais importantes:

  • Gaunlet Holdings Limited – propriedade de Karl Sanne
  • Relcove Finance Limited – propriedade de John Barby, representado por Karl Sanne
  • Allord Overseas Limited – propriedade de um antigo membro do governo de Marcelo Caetano exilado no Brasil
  • Freybell Corp – propriedade de um adm. não executivo do BES (desconhecido)

Estas entidades usavam os créditos do BES para comprar ações do próprio BES, da PT, da Espírito Santo Resources (parte não financeira do grupo) e da ESI. Segundo a PwC, estes empréstimos pareciam estar fora do normal sistema de controlo do banco, e eram suportados por pouca documentação e garantias, tendo em conta o risco das operações. 

Em 2001 (provavelmente por causa de dificuldades no pagamento dos empréstimos) algumas destas entidades foram reestruturadas. Por exemplo, o caso da Gaunlet: a dívida ao BES foi reestruturada e alguns dos ativos vendidos. O produto dessa venda serviu para pagar parte dos juros e capital do empréstimo. As ações (PT e BES) foram transferidas, por sugestão do banco, para uma Sociedade Veiculo detida pela própria Gaunlet. Esta sociedade veículo emitia depois ações, que eram vendidas acima do valor de mercado, e dadas como garantia para os empréstimos do BES. O facto de as ações estarem sobrevalorizadas fazia com que as garantias também o estivessem.

Este mesmo esquema aparece associado à Relcove Finance Limited.

Quando perguntado pela PwC sobre a capacidade dos proprietários destas entidades offshore para honrar as suas dívidas, o BES respondeu que estas eram pessoas com grande riqueza e que acreditava na sua palavra. A auditora não conseguiu no entanto confirmar a sua fortuna.

No total, estas entidades offshore, constituídas com empréstimos do BES, tinham 7% do capital do mesmo BES. Vale a pena recordar aqui a crise no BCP, que ficou marcada por um esquema de compra de ações próprias através de sociedades offshore, muito parecido (à primeira vista) com este que agora conhecemos.

Coincidência ou não, tanto Karl Sanne como John Barby foram diretores da Eurofin, a empresa que, em 2012/2013, aprece envolvida nos esquemas fraudulentos da venda de obrigações BES/GES que levaram à falência do banco.

Resta acrescentar, por fim, que as contas de 2001 acabaram por ser aprovadas pela PwC.

* os dados, nomes e informações utilizados neste post foram mencionados publicamente na reunião da Comissão de Inquérito de 22-12-14.

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One thought on “BES: esquemas com offshores e ligações à Eurofin no início da década

  1. O problema é que, segundo algumas notícias vindas a lume, algumas auditorias ao Bes e ao Ges teriam tido uma qualidade muito duvidosa. Portanto faltaria também auditar devidamente , ainda que com perguntas incómodas mas necessárias, os auditores.

    Para ser franco, e como cidadão, e não obstante o Parlamento, e seja do partido A ou B, dispor de jovens ( e, já agora, mui belas) inteligentes e enérgicas figuras, não me parece que a actual comissão de inquérito, onde os inquiridos se sentam desde logo em lugar de honra ao lado do presidente desta comissão, consiga, ou esteja a conseguir, ( para mal do povo português que porventura terá de vir a pagar um novo bpn), minimamente desempenhar este papel.

    E, para reality shows televisivos já nos chega a “casa dos segredos” ( sendo que eu, tal como muitos outros portugueses, vejo mto pouca televisão),,,

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