Como funciona uma obrigação

obrigação

Obrigação do BES Luxemburgo

A imagem acima é parte da ficha técnica de uma emissão obrigacionista feita pelo BES Luxemburgo em 2012. Faz parte do conjunto de obrigações que foram recompradas em julho de 2014 com perdas avultadas para o BES e que precipitaram a queda do banco.

Sem querer entrar em detalhes sobre o esquema das obrigações – lá chegaremos – a ideia é, tão só, usar este exemplo para explicar o funcionamento de uma obrigação.

Esta obrigação tem um valor nominal (ou facial) de 200 milhões de dólares (campo n.º 4 do documento). Em teoria, o BES Luxemburgo está a pedir 200 milhões de dólares emprestados à pessoa que ficar com este título – imaginemos que é uma empresa chamada ES Fixed Income. Em troca, o banco tem de compensar (ou remunerar) quem lhe emprestou o dinheiro. Há duas formas de o fazer:

  • Preço (campo n.5). O preço mede-se em % do valor nominal. Neste caso, é de 56.988%. Quer dizer que  a ES Fixed Income vai comprar este título, que vale 200 milhões, por 59,988% do seu preço, ou seja, 120 milhões. No final do prazo da Obrigação, o BES terá de devolver 200 milhões à ES Fixed Income.
  • Taxa Cupão (campo n.º 15). A taxa cupão é o juro que o BES se compromete a pagar anualmente ao detentor do título até ao fim da sua maturidade. Neste caso, é 3% (sobre 200 milhões de dólares).
  • Maturidade (campo n.º 8). É o número de anos de validade do título. Neste caso são 10 anos, de 2012 até 2022. Em 2022, o BES devolveria os 200 milhões, mais 3% (6 milhões) ao ano ao detentor do título.

Por norma estas obrigações são compradas, em primeiro lugar, por instituições bancárias e fundos de investimento, que depois as revendem a clientes ‘a retalho’, ou seja, pequenos investidores individuais ou pequenas empresas.

Falta apenas um último conceito. A yield. Várias vezes se confunde com a taxa de juro, mas não é bem a mesma coisa. A yield é a rentabilidade da obrigação para quem a compra, determinada, a cada momento, pelo mercado.

A ES Fixed Income comprou esta obrigação por 59,988% e, em cima disto, recebe 3% ao ano. Façamos as contas. Gastou 120 milhões em 2012 e, no final do prazo, receberá os 200 milhões, mais 6 milhões por ano (taxa de cupão). No total, se faltarem 10 anos, 260 milhões.

Se dividirmos este benefício total pelo número de anos, a obrigação vale, hoje, uma yield, um preço de mercado. 

Imaginemos que o BES, o emissor da obrigação, entra em crise (não é um exercício difícil). A ES Fixed Income vai querer livrar-se da obrigação, mas não vai conseguir encontrar quem a compre por 59,988% do preço. Em vez de pagar 120 milhões, o novo comprador só vai estar disponível para dar … 100 milhões, 50% do preço.

O novo comprador receberá então os 200 milhões mais os juros anuais, relativamente aos anos que faltarem até ao fim da maturidade. Se faltarem 10 anos, receberá os mesmos 260 milhões, mas só gastou 100 milhões. Se dividirmos este benefício total pelo número de anos, a obrigação vale, hoje, uma yield, um preço de mercado, superior ao praticado antes de o BES ter entrado em crise.  

É por isto que quanto mais barata a obrigação (para quem compra), maior a sua yield.

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6 thoughts on “Como funciona uma obrigação

      • Por falar em obrigações: não teria a CMVM ou o B. de Portugal, por lei,e a pedido de um deputado, a obrigação de fornecer a lista de accionistas do BES com mais de 2 por cento do último dia de transações do título em bolsa, bem como da mesma lista mas duas semanas antes?

        Eu, como pequeno accionista, contrariamente ao que disse o Passos Coelho, lixei-me como o mexilhão, seguindo as tangas do Cavaco e do Costa de que “isto tudo no Bes estava seguro” .

        Volto a referir, como disse no comment do seu outro tópico, acho muito estranho a falta de reação dos grandes accionistas estrangeiros do Bes ás (supostas) avultadas perdas com . Nem quero imaginar que o Governador Costa, á semelhança do que fez para conseguir fazer aceitar o nome de V. Bento ( consulte-se os arquivos de jornais da época), tenha também reunido com os grandes accionistas uns dias antes para propor/negociar ou informar da medida de resolução.

        Creio que os obrigacionistas do Bes ainda vão ter esperança de reaver, pelo menos, parcialmente, a massa que lá meteram, com ou sem o fermento de yields associados.

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  1. Olá Mariana,

    pelo que tenho percebido há casos de obrigações emitidas fora de Portugal e vendidas cá aos clientes, não só pelo BES mas, também, por outros bancos, desconhecendo estes clientes quem é o emitente pois nem sequer a identificação aparece, apenas aparece a menção “ESF”…mas, afinal, o que é isto?!?

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    • Olá.
      percebeu bem. a maior parte das obrigações não eram emitidas em Portugal. havia várias empresas a emitir: o próprio BES, através de filiais como o BES Finance ltd, nas ilhas caimão (para pagar menos impostos), mas também a Rioforte e a Espírito Santo International. Estas obrigações eram vendidas a clientes em Portugal, mas também noutros países (emigrantes, por exemplo). também eram vendidas a clientes em Portugal com conta, por exemplo, no banque privée (do grupo espírito santo) na suiça. Na identificação apareciam várias coisas, mas sim, segundo sabemos muitos clientes não se aperceberam do que estavam a comprar, ou não autorizaram, ou não sabiam da real situação financeira do grupo. em abono da verdade, muitas destas práticas não são ilegais.. outras configuram fraude ou más práticas bancárias

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