Por que é que é importante olhar para a KPMG?

Rel KPMG 2012

Excerto do parecer da KPMG às contas de 2012 do BESA

A KPMG era a revisora de contas do BES desde 2002. Cabia-lhe a análise e aprovação, ou não, das contas financeiras do banco. Para além do BES, a consultora/auditora/revisora trabalhava ainda para a grande maioria das empresas financeiras do Grupo Espírito Santo (ver lista aqui). Entre elas, a Espírito Santo Financial Group, a Espírito Santo Irmãos, a Espirito Santo Financial e, claro, o BESAngola (ver estrutura aqui).  A abrangência do conhecimento da KPMG em relação ao Grupo Espírito Santo levanta duas questões, às quais não podemos, não queremos, nem devemos fugir.

Em primeiro lugar, como é que a KPMG, auditora do BESA, não avisou a KPMG, auditora do BES, sobre os problemas que o banco angolano estava a atravessar?

Desde 2011, que a KPMG, nos pareceres às contas do banco angolano (ver Relatórios e Contas aqui), chama a atenção para problemas com a carteira de crédito,  inexistência de mecanismos informáticos para aferir o destino dos empréstimos concedidos, existência de imóveis reais que não estavam nas contas, e imóveis nas contas que não eram reais. As contas foram, ainda assim, aprovadas, mas a informação existia e era conhecida.

Ora, e o que é que o BES Portugal tinha a ver com isto? É que o BES (pt) tinha registados, em 2012, 2800 milhões de euros de empréstimos à sua “empresa-filha” angolana. O problema é óbvio: se o BESA entrasse em apuros por não recuperar os créditos desconhecidos – que hoje sabemos terem ido para figuras próximas de Álvaro Sobrinho e do regime Angolano – podia não ter o dinheiro para pagar as suas dívidas ao BES, pondo este também em apuros. E é exatamente por causa deste risco que o BES deveria ter constituído uma provisão. Por outras palavras, deveria ter posto dinheiro de lado para se prevenir de uma perda daquela dimensão. Se esta provisão tivesse sido feita, teria ficado claro, logo em 2012/2013, que o BES não possuía o capital suficiente para fazer face a todos os riscos do seu balanço.

Por que é que a KPMG não obrigou o BES a fazê-lo? Esta é uma das questões cruciais da comissão de inquérito. De início, o presidente da KPMG, Sikander Sattar, começou por ensaiar uma suposta independência entre a KPMG Angola e a KPMG Portugal, mas rapidamente concluímos que, afinal, ele próprio é o presidente de ambas as empresas. Mais, antes de 2011 nem existia KPMG Angola. Tudo indica que era a KPMG Portugal que auditava o banco angolano e foi a KPMG Portugal que ‘ajudou’ (para não dizer mais) à sua constituição, bem como no trabalho com BESA. Apesar das várias perguntas nesse sentido, continuamos sem saber quem foi a pessoa/equipa responsável pela assinatura das contas do BESA. Sikander Sattar, presidente da KPMG Portugal disse aos deputados da comissão de inquérito que não podia responder enquanto Sikander Sattar, presidente da KPMG Angola…

Em segundo lugar devemos questionar se a KPMG, que auditava a maior parte das empresas do ramo financeiro do grupo, não era a entidade em melhor posição para reconhecer e antecipar os problemas no GES? Por exemplo, só em julho descobriram um esquema fraudulento de emissão de obrigações a  funcionar, pelo menos, desde janeiro. Estes títulos, entre outras entidades, passavam pelo BES, pelo ES Panama, e pelos ‘veículos’ Euroaforro, TopRenda e pela Poupança  Plus I. Todas elas auditadas pela KPMG, ainda que em países diferentes. Mais, segundo notícias internacionais, o anterior auditor destes veículos terá feito considerações à forma forma subjetiva como os seus ativos eram avaliados.

Todos estes factos fizeram com que a auditora fosse alvo de críticas internacionais. Mas vale sempre a pena lembrar que não é caso único. A KPMG auditava o BCP quando o escândalo dos offshores rebentou e nem por isso foi afastada do banco, que ainda hoje audita. Como a KPMG há muitos outros casos, particularmente entre as quatro maiores auditoras do mercado. Empresas ‘independentes’ que são pagas pelos bancos e empresas que auditam, e a quem fornecem vários serviços, entre eles aconselhamento jurídico e fiscal sobre as melhores formas de usar a lei a favor dos clientes.

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2 thoughts on “Por que é que é importante olhar para a KPMG?

  1. Um ponto decisivo esta na atribuicao de rating pela KPMG a ESPIRITO SANTO INTERNACIONAL
    Este Rating foi atribuido primeiro pela Direcao de Risco do BES liderada por Jose Maria Ricciardi e Joaquim Goes e depois confirmada pela KPMG.
    Sem este Rating interno do BES feria sido impossible commercializer o papel commercial da ESI nos balcoes do BES

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  2. Ainda hoje não percebo como não se discute de forma mais veemente o trabalho das auditoras, o que resulta dos seus pareceres. O caso do BES é paradigmático. A KPMG conhecia muito do universo Espírito Santo.

    Quando a ENRON faliu nos Estados Unidos, a Arthur Anderson, um portento em auditoria de então, foi desmantelada e criaram-se regras mais apertadas. É claro, depois voltou-se ao mesmo.

    Não consigo compreender…. sem “intrusão” não há auditorias no verdadeiro sentido da palavra. Enquanto existir uma relação directa entre comprador/vendedor, não existe auditorias.

    Porque não criar-se um fundo para a qual as empresas auditadas comparticipam (sociedades anónimas) na medida da sua dimensão e a partir deste as auditoras são pagas? Pelo menos para as empresas cotadas em bolsa isto parece-me que deveria ser feito.

    Os Managers das auditoras precisam de atingir objectivos… quanto a coisa rebenta, se é que rebenta, já eles estão muito longe e fizeram a sua vidinha…

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