BES Angola: o elefante que ninguém quis ver

Fundado em 2002, o BES Angola rapidamente ascendeu a um lugar cimeiro entre os bancos angolanos, com a sua atividade a registar taxas de crescimento difíceis de conceber, mesmo para uma economia em forte crescimento como a angolana.

Olhando para os relatórios do BESA, verificamos que o balanço do banco cresceu mais de 40 vezes entre 2004 e 2013, de 263.9 para 11.341 milhões de dólares, o que corresponde a um crescimento médio de 52% ao ano. Entre 2007 e 2008, por exemplo, a atividade do banco cresceu 6 vezes.

Este crescimento foi, em larga medida, financiado pelo Banco Espírito Santo, aparentemente sem levantar dúvidas ao supervisor português.Em 2008, o banco angolano já reportava a existência de dívida ao BES no montante de 2.263 milhões de dólares (cerca de 1.600 milhões de euros, ao câmbio da altura), quatro vezes mais que no ano anterior. A exposição do BES português à subsidiária angolana era já assinalável e deveria ser questionada não só pelos órgão de controlo interno, mas também pelos auditores externos e, obviamente, pelo Banco de Portugal, o responsável pela supervisão do BES.

Na verdade, segundo sabemos, era já fonte de preocupação dentro do BES. A comunicação social já noticiou e-mails trocados em Março de 2009 entre o responsável pelo controlo financeiro do BES e Álvaro Sobrinho, o responsável máximo do BESA e homem de confiança de Salgado em Luanda. A notícia mostra que a informação sobre o destino dado em Luanda ao dinheiro emprestado pelo BES não era suficientemente clara. Numa das respostas, Sobrinho mostra que tinha a única aprovação necessária – o acordo de Ricardo Salgado.

Em 2012, os empréstimos do BES ao BESA ascendiam a 2.800 milhões de euros e em 2013 subiram para 3.100 milhões de euros. Esta informação era pública, através dos Relatórios e Contas do BESA mas, apesar disso, não há evidências de que o Banco de Portugal tenha agido ou duvidado da sua qualidade.

Com a substituição de Sobrinho, que entretanto se incompatibilizou com Salgado, foi conhecida a situação de falência do BESA. Rui Guerra, o novo responsável do banco, reportou cerca de 5.700 milhões de dólares (cerca de 4.100 milhões de euros) de empréstimos concedidos a figuras próximas do poder de Luanda e, em alguns casos, a empresas ligadas ao próprio Sobrinho.

Para não deixar cair o banco, Salgado negoceia, no final de 2013, um acordo com o próprio presidente angolano: o primeiro aumentaria o capital do BESA, em troca de uma garantia do Estado Angolano para assegurar que BESA seria ressarcido dos créditos incobráveis até 5.700 milhões de dólares.

Embora esta garantia não assegurasse o pagamento da dívida do BESA ao BES – apenas o pagamento dos empréstimos concedidos pelo BESA a empresários angolanos – ela foi aceite como boa, e todos – reguladores e auditores – escolheram não ver o elefante no meio da sala. O BES nunca constituiu provisões para o que era uma das suas maiores exposições a um único devedor, a KPMG não o referiu na sua validação das contas do BES, e o Banco de Portugal nada disse sobre o assunto, apesar de, nessa altura (final de 2013) já estar a par de muitos dos problemas do BES. Mais que isso, desde 2012 que o montante emprestado pelo BES ao BESA excedia aquilo que o próprio Banco de Portugal impunha em termos de concentração de devedores.

No início de julho de 2014 já se sabia que o BESA estava em maus lençóis e, no dia 27 de julho, o Banco de Portugal recebe uma carta do Banco Nacional de Angola com um aviso: os créditos vão ser reestruturados e uma parte não será paga.

Se os esquemas das obrigações e a exposição ao ramo não-financeiro foram oficialmente a razão para se revelar insuficiente a almofada de capital que, até poucos dias antes da divulgação das contas, todos anunciavam suficiente para tornar desnecessária a intervenção no BES, logo no dia 3 de Agosto o anúncio da resolução pelo Banco de Portugal clarificou o que já era claro pelo menos desde o final de 2013, os créditos ao BESA eram irrecuperáveis.

Com a resolução do BES o governo de Angola cancelou a garantia e, em Outubro, procedeu à reestruturação do BESA. Dos 3.300 milhões de euros devidos, o banco angolano apenas reconhece cerca de 660 milhões (329 milhões a reembolsar em 18 meses, outro tanto em 10 anos). A participação do BES no capital do banco angolano (55%, avaliados em 273 milhões de euros) é reduzida para 9,9%, cerca de 54 milhões de euros.

Ou seja, no total e se tudo correr bem, a aventura angolana de Salgado & Sobrinho, redundou num buraco de mais de 2.800 milhões de euros. Um elefante que ninguém viu mas que estava, pelo menos desde 2012, mesmo no meio da sala.

Para um futuro próximo, a promessa de um texto sobre a resolução e forma de contabilização das perdas no ‘Novo Banco’.

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One thought on “BES Angola: o elefante que ninguém quis ver

  1. Pelo Relatório e Contas de 2012 é fácil perceber:
    – rácio transformação consolidado – 191%
    – nível de provisionamento do crédito – 3,9% (ou seja, todo o crédito concedido era praticamente “bom”) – impossível em qualquer lado do mundo!!!

    Assim, importava saber:
    – como é possível a KPMG aceitar este nível de provisionamento?
    – consolidando no BES como é que o BES aceita este provisionamento?
    – como é que o Banco de Portugal aceita este provisionamento?

    tudo estava evidente há muito tempo…

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