A estória Disto Tudo. O blogue

As comissões de inquérito já não são novidade para ninguém. Dezenas e dezenas de pessoas e páginas aos milhares. Difícil não é ter o que dizer, ou mesmo descobrir factos novos. Difícil é fazer sentido de todas as descobertas, ligar todos os pontos e minúsculas informações para que, no fim, seja finalmente possível explicar – ainda que em versão simplificada – o que é que aconteceu com o BES/GES.

Este espaço não existe, em princípio, para impor narrativas ou interpretações. Mas não pode ser também uma soma de fragmentos, meras traduções técnicas. O fio do raciocínio que junta todas as pontas soltas é, quase sempre, o produto de uma leitura pessoal.

E é esta a declaração de interesses óbvia. As explicações técnicas aqui reproduzidas são esforços praticamente individuais, sem pretensões de infalibilidade; as interpretações são leituras dos factos, e não constituem, por si só, factos. Sempre que possível os textos serão acompanhados de fontes e documentos de apoio.

Dito isto, o que é que pode constituir um guia (ou índice) de leitura para a Comissão de Inquérito? Aqui fica uma humilde tentativa, sem prejuízo de permanentes acrescentos e alterações :

Supervisão/Regulação/Auditoria:

  1. Perante a acumulação de indícios, por que é que o Banco de Portugal não interveio mais cedo e de forma mais musculada?
  2. Por que é que o Banco de Portugal não retirou a idoneidade a Ricardo Salgado apesar de tudo o que já se sabia?
  3. Por que é que o Banco de Portugal não obrigou o BES a reconhecer que os créditos ao BESA no valor de 3300 milhões de euros corriam o risco de não ser pagos?
  4. Por que é que a KPMG, que também auditava o BESA, não alertou para esse facto?
  5. Quando é que, de facto o Banco de Portugal decidiu intervencionar o BES? É possível que tenha sido só no dia 1 de Agosto, depois de uma ‘ameaça’ do BCE que iria retirar o estatuto de contraparte ao banco?
  6. Será mesmo que não existiam factos que justificassem uma intervenção muito antes de Agosto de 2014? O que é que explica esse adiamento?
  7. Entre o dia 31 de julho e o dia 1 de agosto foram transacionadas largas quantidades de ações do BES, o que fez o seu valor de mercado cair 65,4%. Estas operações levaram a CMVM a abrir uma investigação por eventual fuga e abuso de informação privilegiada e colocam em causa a versão do Governador do BdP sobre o momento da decisão de intervenção no BES. Quem é que ganhou, e ganhou muitos milhões, com o eventual abuso de informação privilegiada?
  8. Quem decidiu os ativos e passivos que faziam parte do ‘Novo Banco’ e do ‘banco mau’?

Governo e afins

  1. Até agora o governo tem optado por se esconder atrás do Banco de Portugal. A ministra das finanças afirma que só sabia o que lhe era transmitido pelo BdP e que foi simplesmente informada da decisão no dia 1 de agosto. Foi mesmo assim? É possível que o Governo não tivesse uma palavra a dizer no modo e tempo de intervenção pública no maior banco privado português?
  2. Por que é que a Troika não viu o colapso do BES quando um dos seus pilares de intervenção era a estabilidade do sistema financeiro e tinha os seus técnicos acampados nos principais bancos nacionais?
  3. Desde o início que a ministra das finanças afirma que a forma de intervenção escolhida (‘banco bom’ e ‘banco mau’) não acarreta custos para os contribuintes. É possível? Quais serão os custos reais? Há vários riscos, entre eles:
    1. processos contra o Estado;
    2. o ‘Novo Banco’ não ser vendido por um valor que permita ao Fundo de Resolução devolver os 3900 milhões de euros ao Estado, e os bancos não estarem disponíveis para assumir essa perda;
    3. a forma de contabilização dos ativos por impostos diferidos.

O Grupo Espírito Santo e Ricardo Salgado

  1. Como é que Ricardo Salgado, entre outros, conseguiu mascarar as contas durante tanto tempo?
  2. Qual era o verdadeiro nível de informação que a sua auditora externa (KPMG) tinha sobre estas operações?
  3. Para que servia a Eurofin e como se processava o esquema triangular das obrigações?
  4. Que outros esquemas existiam e ainda estão por descobrir?
  5. Qual é o verdadeiro paradeiro da ESCOM, e qual o seu papel, por um lado, nos créditos mal parados do BESA e, por outro, em vários negócios em Portugal, como o da compra dos submarinos?
  6. Quais as verdadeiras relações entre a Akoya Asset Management, envolvida no caso Montebranco, e os membros do GES?
  7. Quais são as relações entre a Goldman Sachs e o BES? O que é que leva o gigante financeiro e emprestar dinheiro ao BES, já em julho de 2014, para que Salgado financie a empresa venezuelana PDVSA, que tinha contratado a empresa chinesa Wison Engineering Services Co para construir uma refinaria de petróleo? É preciso dizer que o contrato aconteceu dias depois de o CEO desta empresa chinesa ter sido preso por corrupção (notícia aqui).

Cada um destes pontos e subpontos divide-se em várias pequenas questões e factos que serão dissecados ao longo da Comissão de Inquérito. Com eles tentaremos escrever a estória Disto Tudo, agora sem Dono.

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9 thoughts on “A estória Disto Tudo. O blogue

  1. Cara amiga
    Não sei qual o valor que ficam as comissões de inquérito, mas é caricato verificar que se gasta tanto dinheiro tanto tempo nas ditas comissões, e o que se tem verificado até hoje, e que eu me lembre nenhuma surtiu efeito. Nunca à culpados de nada. A meu ver, deviam acabar, para que sevem? Gostava que me informa-se se estou errado. Cumprimentos

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    • Carmindo, as comissões parlamentares de inquérito não custam propriamente mais dinheiro ao Parlamento. Relativamente à sua utilidade, admito que algumas possam ter ficado reféns da ‘má vontade’ política e da falta de interesse em descobrir a verdade. Mas não é por isso que devemos deixar de tentar fazê-lo. O caso BES merece escrutínio democrático, e a melhor forma de o fazer ainda é uma comissão de inquérito. Por isso acho que vale a pena o risco..

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  2. Uma boa pergunta para Ricardo Salgado
    Se autorizou a concessão de crédito antes da privatização a sua filha ao seu filho e ao seu genro para comprarem ações da PT e da EDP que pouco depois foram vendidas com mais valias e o lucro transferido para a Suíça .
    Pergunta para António Souto e Joaquim Goes.
    Depois de serem impedidos pelo Banco de Portugal e frequentarem as instalações de Banco, que estavam eles a fazer na sede antes das oito horas, no dia imediatamente a seguir.

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  3. Parabéns pela iniciativa
    A idoneidade não é a única forma do BdP intervir numa Admnistracao bancaria. Pode , por exemplo , a qualquer momento SUSPENDER de funções um ou mais Admnistradores pendente de uma qualquer análise que pretendesse fazer.
    Noto ainda que é pratica standard nos Bancos a suspensão imediata de funções -a qualquer nível -pois se sabe que em minutos se pode fazer dano grave.
    Neste caso o BdP manteve em funções uma liderança que vinha prestando falsas informações e contas falsas desde 2008- tendo provas irrefutáveis disso desde o verão passado e com absoluta certeza desde Janeiro deste ano.
    O BdP não suspendeu Salgado e outros não por não ter poderes mas porque não quiz,não teve força política ou como disse o ELPAIS “Carlos Costa se acordados”

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  4. Considero este blog de grande utilidade, pertinência e revelador de uma grande busca de informação sistematizada sobre o tema. Parabéns mais uma vez á autora. Só espero que a mesma, na qualidade de membro da CI, ao caso BES, saiba transpôr para a ação da referida comissão todo o conhecimento e garra que revela, intervindo, interpelando, inquirindo e agindo, na medida do possível (dadas as limitações de ação destas comissões de inquérito parlamentar). Mesmo assim muito se pode fazer se não se estiver no papel passivo de “deixa andar” ou de “rabo entalado” apresentado por muitos dos seus membros. Parabéns Mariana. A sua causa, a forma como encara este trabalho, a sua garra, a sua lucidez, agradam-me. Não sou simpatizante do seu partido, mas sei ver uma árvore viçosa numa floresta queimada.

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  5. Além das comissões de inquérito não terem valor judicial algum, servem para se apurarem suposições, para se trocarem acusações e acima de tudo para distrair os cidadãos com uma matéria que deveria única e exclusivamente ser tratada em tribunais. Enfim, ao se encher os telejornais com o “não-assunto” Sócrates e com o “não-assunto” comissão de inquérito não se fala no orçamento de estado, do TTIP e da mobilização popular que atinge os E.U.A, nestes últimos meses. Mais do mesmo nesta pseudo-democracia! Por ter imenso respeito pelo trabalho que a Mariana faz, peço para não se deixar levar pelas teias de interesses que reina no seu mundo e para nos ajudar a resgatar a democracia. Cumprimentos

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  6. Ainda me lembro do “obedecia a tudo” dizer,que não era o “faz tudo”, o “dono disto “tudo dizer, que não era dono de nada , os que enriqueciam com isto tudo , dizer que não sabiam onde andava o dinheiro e os que davam a cara por tudo isto , dizer que quem mandava era o “DDT”.
    É uma tristeza ver tanta gente irresponsável que durante anos governou o maior banco privado português com salários principescos e que afinal não pagavam qualquer tipo de responsabilidade. Esta gente para além de serem uns trafulhas são cobardes e incapazes de assumir o esbulho que fizeram ao banco (clientes e accionistas) espero ver a justiça cumprir o seu papel e depois do apuramento das responsabilidades ver esta gente toda na cadeia , que é efectivamente o lugar onde merecem estar. O País passa pelo que passa ,porque políticos e banqueiros saquearam até mais não poder e agora saca-se os ordenados e os direitos adquiridos pelas pessoas, para pagar os desmandos desta gente. Enfim , bem haja Mariana Mortágua.
    Saudações,

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